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Poemas e Versos Gaúchos
Poemas e Versos Gaúchos

HOMENAGEM

 

AOS NOSSOS GRANDES POETAS

 

 

Sem Diploma

Autor:Jayme Caetano Braun

 

Bendito aquele que estuda
porque estudar é importante,
embora o ignorante
tem sempre um santo que ajuda,
às vezes a sorte muda,
quando existe um santo forte,
cada qual procura um norte,
por isso não encabulo
- que a tava que bota culo
é a mesma que bota sorte!

Meu tetravô foi fronteiro,
meu bisavô domador,
o meu avô - alambrador
e o meu pai foi carreteiro;
a mim não sobrou dinheiro
pra cursar a faculdade,
mas tive a felicidade
graças ao nosso senhor
e me tornei payador
pra guardar a identidade!

O estudo é muito bonito
e até muito necessário,
mas este cantor primário,
cruzando o pago infinito,
continua - a trotezito,
mesmo sem ser diplomado
e me sinto conformado,
o que é meu - ninguém me toma,
pois duvido que um diploma
torne um burro advogado!

Como é lindo colar grau
num salão de faculdade,
embora essa qualidade
não transforme o bom em mau,
o Jayme Caetano Braun,
dessa linha não se afasta,
a inspiração não se gasta
nem me torna mais cruel,
eu conquistei um anel
o de gaúcho - e me basta!

 

 

 


Gaúcho

Autor:Ruben Sofildo da Silva


Gaúcho é filho do pago
Que ama e zela esta terra
Fronteira, missões e serra,
Campanha e litoral,
Recantos do mesmo ideal,
Onde se vê o céu azul,
Os rios, a mata, a flechinha,
Mas tudo é chão farroupilha
Tudo é Rio Grande do Sul.

Gaúcho não é ser grosso
Ter botas, esporas e mango
Usar lenço chimango,
Atado frouxo ao pescoço,
E andar fazendo alvoroço,
Comprando qualquer parada,
Gaúcho é ser idealista,
Peleiar só por conquista
Em defesa da terra amada.

Gaúcho é nome e herança,
Que os bravos heróis nos legaram,
Que muito mal empregaram
Não compreendendo por certo
Gaúcho é altivo, esperto,
Espontâneo, inteligente,
Respeitador bom amigo,
Mas quando encontra o perigo,
Costuma chegar de frente.

Quem foi Bento Gonçalves?
Quem foi David Canabarro?
Não foram estátuas de barro,
Nem pobres leigos sem eira
Quem foi Pinto Bandeira?
Eu nesses versos lhe digo,
Com altivez e estoicismo,
Foram a nata do gauchismo,
Do nosso Rio Grande amigo.

  

 

            

HERANÇA

Autor: Apparicio Silva Rillo


"Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Naqueles tempos, sim, naqueles tempos,sim
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Eram uma casas cálidas, solenes
sob as telhas portuguesas, maternais.
Em pálidos azuis eram pintadas
e em brancos, em ocres e amarelos.
Algumas nem mesmo tinham reboco. Na
carne dos tijolos mostravam-se nuas,
abertas em janelas que espiavam
da sombra verde para o sol das ruas.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
tinham balcões e sacadas essas casas
e úmidos porões e sótãos com fantasmas.
E tinham jasmineiros sobre os muros
e acolhedoras latrinas de madeira
disfarçadas entre as plantas dos quintais.
E laranjeiras e galos e cachorros
um barril barrigudo cheio d'água
e uma concha de lata para a sede.
Nas varandas que eram frescas e abertas
a moleza da sesta numa rede...

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
as portas eram altas
e alto o pé-direito das salas dessas casas.
Mas eram simples as pessoas que as casas abrigavam.
Os homens chamavam-se Bento, Honorato, Deoclécio,
as mulheres eram Carlinda, Emerenciana, Vicentina.
Os homens usavam barbas e picavam fumo em rama,
as mulheres faziam filhos, bordados e rosquinhas.
Os homens iam ao clube, as mulheres À missa,
e homens e mulheres aos velórios.
Morriam discretamente e ficavam nos retratos.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
a igreja tinha santos nos altares
e havia mulheres rezando ao pé do santos.
O padre usava uma batina cheia de manchas e botões,
batizava crianças, encomendava os mortos,
rezava a missa em latim: "Agnus Dei"...
e comia cordeiro gordo na mesa do intendente.
Os homens ajudavam nas obras da igreja,
mas acreditavam mais nas armas que nos santos.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os chefes eram chamados "coronéis".
Ganhavam seus galões debaixo da fumaça
em peleias a pata de cavalo,
garruchas de um tiro só e espadas de bom aço.
As mulheres plantavam flores e temperos
pois tinham mesma valia o espírito e o corpo.
Sabiam receitas de panelas fartas,
faziam velas de sebo e tachadas de doce
e de graxas e cinzas inventavam sabão.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os bois mandavam nos homens,
e por isso a vida era mansa na cidadezinha
arrodeada de ventos, chácaras e estâncias.
Os touros cumpriam devotamente o seu mister
e as vacas, pacientes,
pariam terneiros e terneiros e terneiros.
O campo engordava os bois,
as tropas de abril engordavam os homens
e os homens engordavam as mulheres.

Por isso a cidade chegou até aqui.
Por isso estamos aqui
- netos e bisnetos desses homens,
dessas mulheres, netas e bisnetas.

Por isso um berro de boi nos toca tanto
e tão profundamente.
Por isso somos guardiões de casas velhas,
almas de sesmarias e de estâncias,
paredes que suportam seus retratos.

O músculo do boi na força que nos leva.
A barba dos avós como um selo no queixo.
O doce das avós na memória da boca e nela
este responso:

- Naqueles tempos, sim, naqueles tempos...

 

 


            

A Doma do Potro Baio

Autor: Balbino Marques da Rocha


E um potro baio-amarelo,
Que não pelava o lombilho,
Com cada um coromilho
De assustar um domador,
Ali estava no piquete,
Esperando algum ginete
Pra passar-lhe o maneador!

Mas tinha uma condição:
Era, depois de encilhá-lo
Deixar tão manso o cavalo
Que, palanqueado o bagual
Fosse uma china sozinha
Dar um nó num fio de linha
Na rédea atrás do bocal...

Não se enxergava um campeiro
Que agüentasse esse tirão,
Porque soltar redomão
A um potro de tal topete,
Só dá pra fazer picuinha,
Inda mais atar a linha
De trás do bocal do flete.

Mas como foi se espalhando,
A notícia do tal potro,
Se pensava num e noutro,
E as morenas como um raio,
Pois ia ser a rainha
Quem atasse o fio de linha
De atrás do bocal do baio.

Nisto alguém se levantou,
Deu de mão num buçal grosso,
Num mango cabo de osso,
Num maneador e num laço
E foi ali repontar
O pingo pra encilhar,
O nosso pardo Amigaço.

É que uma ali, cor de cuia,
China de trança cuidada,
Não quis le dar muita entrada,
E o caboclo, de soslaio,
Notou que a china estranhava
Porque ninguém se ensaiava
Pra repicar o tal baio.

Quando o pardo alevantou-se,
A chinoca estremeceu...
"Se este povo percebeu,
Virge Santa, se pareça
Que eu fui a causa de tudo,
Vou dizer ao chilenudo
Que tire isto da cabeça!"...

Mas já o índio de a cavalo,
Cruzava lá na cancela...
Se via aquela panela
De gente redemunhando...
Quando o flete disparou
Foi que a corda se cerrou
Atrás da orelha enforcando.

E com mais uns tironaços,
E mais um tino campeiro,
O bagual, como um terneiro,
Foi recebendo a carona,
A cincha juntou-le o basto,
Um pelego cor-de-pasto
E a sobrecincha de lona.

Bocal sovado a capricho,
E rematado em ponteira,
Que toda a indiada campeira
Tem a sua manha no apero,
Cada qual tem seus inventos
E até pelo nó dos tentos,
Não copeia o companheiro.

Quando orelhavam o baio,
E o Amigaço se alçou,
O povo se encomendou,
Fazendo o pelo-sinal...
Mas o Amigaço, mui calmo,
Deu um nó na rédea, a um palmo
Pra cá das cruz do bagual!

E é melhor nem mais contar...
O baio pateou na orelha,
Pulando um monte de telha
Que ali estava pela frente,
E o pardo saiu tenteando,
Chapéu na mão, gineteando,
Aos olhos daquela gente.

Dali um pouquito, riscou
Campo fora se perdendo,
A indiada foi se benzendo,
Rezando a Deus com fervor,
Só bombeando a polvadeira
Daquela louca carreira
Por detrás dum corredor!

Passou-se mais um bocado
De ânsia desengrenada...
Lá adiante, junto da estrada,
No rebordo de um capão,
Amadrinhador do lado
- O potro vinha estonteado,
Num trote de redomão! ...

Apeou-se meio por longe,
Pra não judiar do cavalo,
Pois não queria surrá-lo...
E o amarrou num moirão,
Pedindo prá caboclinha
Que no mais atasse a fita
Na rédea do redomão!

A moça toda risonha
Foi chegando pra o cavalo,
E no tentar alisá-lo
O baio lambeu-lhe a manga;
E depois de atar a linha,
Considerou-se Rainha,
Vermelha como pitanga!

Virando para o Amigaço,
Mesurou-se agradecendo...
Mas o pardo foi dizendo:
"M'ia dama, não foi o trato...
O potro gostou da linha,
Perdoe se foi a rainha
Por este preço barato!

Não precisa agradecer,
Que já me acho bem pago,
Naquele bocal eu trago,
Atado, o fio da m'ia sorte...
Faz de conta que é uma história...
Não guarde na sua memória
Este índio vago e sem norte!...


       

 

      

Chimarrão

Autor: Glaucus Saraiva


Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata.
Tens o perfume da mata
Molhada pelo sereno.
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão
em mão
Traduz, no meu chimarrão,
Em sua simplicidade,
A velha hospitalidade
Da gente do meu rincão.

Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística beberagem,
Do feiticeiro charrua,
E o perfil da lança nua,
Encravada na coxilha,
Apontando firme a trilha,
Por onde rolou a história,
Empoeirada de glórias,
De tradição farroupilha.

Em teus últimos arrancos,
Ao ronco do teu findar,
Ouço um potro a corcovear,
Na imensidão deste pampa,
E em minha mente se estampa,
Reboando nos confins ,
A voz febril dos clarins,
Repinicando: "Avançar"!
E então eu fico a pensar,
Apertando o lábio, assim,
Que o amargo está no fim,
E a seiva forte que eu sinto,
É o sangue de trinta e cinco,
Que volta verde pra mim.
 


       

 

        

No Bolicho

Autor: Apparicio Silva Rillo


Traga de vez a garrafa,
bolicheiro! me despacha,
que hoje no mais se emborracha
quem nunca se emborrachou.
Quero beber no gargalo
para esquecer o pialo
que o tal de amor me atirou.

Sou índio duro de queda
mas fui pegado de jeito.
Bateu-me a argola no peito
e ali no mais me planchei.
Sempre fui solto de pata
mas nessa volteada ingrata
num tacuru tropecei!

Sucede que eu não sabia
quanta manha se requer
pra se correr com mulher
na cancha reta do amor.
Desci confiado pra raia...
Perdi pro rabo de saia
sem sair do partidor!

Caí no tiro de laço
de um olhar de china atrevida,
que embuçalou minha vida
na armada negra das tranças,
pra depois de ter-me preso
marcar-me com seu desprezo
na picanha da esperança.

Desprezo não há quem cure,
não há remédio que impeça,
não há reza, nem promessa
que lhe conserte o estrago.
Por isso, seu bolicheiro,
pra aparceirar o primeiro
ponha no mais outro trago!


                

Reza Chucra

Autor: Alcy Cheuiche
gentileza de Marcio Leão da Silva
extraído do livro Versos do Extremo Sul


Perdoe Virgem Maria
Por lhe tomar atenção,
Envolvendo um coração
Tão puro e tão adorado,
Nesta miséria qu'eu trago,
Que arrasto, é melhor que diga,
Por esta terra inimiga,
Onde nunca fui amado.

A Senhora bem se lembra
Que nem sempre foi assim...

Embora não fosse
em mim
Que a fortuna tinha ninho,
Eu bem que tive carinho
E uma mulher cuidadosa
Que me deixava de jeito,
Um lenço branco no peito,
A bombacha bem limpinha,
Quando para a igreja eu vinha,
No tempo qu'eu fui feliz.

Agora olhe pra mim.
Veja esta roupa rasgada
Qu'eu carrego com vergonha.
Parece que a gente sonha,
Quando vê que não é nada
Prá dominar o seu vício
Quando eu morava no pago
As vezes tomava um trago
No mais prá molhá a garganta
E agora querida Santa,
Até virei cachaceiro,
Depois que bebo o primeiro
Não há nada que me pare.
E depois até que eu sare
Vem me subindo a cabeça
Toda essa vida passada
E o rosto da minha amada
Enxergo assim como em sonho...

Ó minha Nossa Senhora,
Escute ao menos agora
Um pedido que le faço.

Sei que a morte já me ronda
Pela porteira do rancho...
Até já vejo os caranchos
Rodeando em volta de mim.

Reconheço o meu pecado,
E quando tiver chegado
Lá na fronteira do céu
Vão me apontar outro rumo:
- Ovelha com mancha preta
Bota a marca na paleta
Que só serve prá o consumo. -

Prá mim não há mais remédio,
Não é prá mim o pedido.
Sou índio chucro vencido
Pelo vício aqui do povo.

Eu peço é pelo meu filho,
Que abandonei lá no pago
Quando a sina de índio vago
Me arrebatou da querência.

Proteja a sua inocência...
Não deixe que o coitadinho
Siga este duro caminho
Que está seguindo seu pai.

Que fique por toda a vida
Grudado naquele chão,
Que resista a tentação
Com toda a força de machd,
Que não morra como guacho
Quando pará

 


Amargo

Autor: Jayme Caetano Braun


Velha infusão gauchesca
De topete levantado
O porongo requeimado
Que te serve de vazilha
Tem o feitio da coxilha
Por onde o guasca domina,
E esse gosto de resina
Que não é amargo nem doce
É o beijo que desgarrou-se
Dos lábios de alguma china!

A velha bomba prateada
Que atrás do cerro desponta
Como uma lança de ponta
Encravada no repecho
Assim jogada ao desleixo
Até parece que espera
O retorno de algum cuera
Esparramado do bando
Que decerto anda peleando
Nalgum rincão de tapera!

Velho mate-chimarrão
As vezes quando te chupo
Eu sinto que me engarupo
Bem sobre a anca da história,
E repassando a memória
Vejo tropilhas de um pêlo
Selvagens
em atropelo
Entreverados na orgia
Dos passes de bruxaria
Quando o feiticeiro inculto
Rezava o primeiro culto
Da pampeana liturgia!

Nessa lagoa parada
Cheia de paus e de espuma
Vão cruzando uma, por uma,
Antepassadas visões
Fandangos e marcações
Entreveros e bochinchos
Clarinadas e relinchos
Por descampados e grotas,
E quando tu te alvorotas
No teu ronco anunciador
Escuto ao longe o rumor
De uma cordeona floreando
E o vento norte assobiando
Nos flecos do tirador!

Sangue verde do meu pago
Quando o teu gosto me invade
Eu sinto necessidade
De ver céu e campo aberto
É algum mistério por certo
Que arrebentando maneias
Te faz corcovear nas veias
Como se o sangue encarnado
Verde tivesse voltado
Do curador das peleias!

Gaudéria essência charrua
Do Rio Grande primitivo
Chupo mais um, pra o estrivo
E campo a fora me largo,
Levando o teu gosto amargo
Gravado em todo o meu ser,
E um dia quando morrer,
Deus me conceda esta graça
De expirar entre a fumaça
Do meu chimarrão querido
Porque então irei ungido
Com água benta da raça!!!

 

Chimarrão da Madrugada

Autor: Aureliano de Figueiredo Pinto


Não sei por que nesta noite
o sono velho cebruno
ergueu a clina e se foi!
E eu que arrelie ou me zangue.

Tenho olhos de ave da noite,
ouvidos de quero-quero
cordas de viola nos nervos
e uma secura no sangue.

Então, da marquesa salto
e vou direto ao galpão:
bato tição com tição
e a lavarede clareia
os caibros do galpão alto.

Já a cuia bem enxaguada,
corto um cigarro daqueles
de reacender vinte vezes
num trote de quatro léguas
de uma chasqueira troteada.

E, quando a chaleira chia,
principio um chimarrão,
mais verde e mais topetudo
do que um mate de barão.

Me estabeleço num banco
pra gozar gole e fumaça,
pitando um naco de branco.
E entre tragada e golito
saludo mui despacito
cada recuerdo que passa.

Um galo - o cochincho-mestre!
o laço desenrodilha.
E fica só com a presilha
e solta a armada bem grande
do laço de um canto largo
de sobrelombo a uma estrela.

E os outros galos-piazitos
vão atirando os lacitos
como em guachas de sinuelo.

E até um garnisé cargoso
vai reboleando orgulhoso
o soveuzito feioso
feito de couro com pêlo.

Nem relincham os cavalos!
Com brilhos de ponte-suelas,
lá em riba estão as estrelas!
Cá em baixo os cantos dos galos.

A estrela d'alva trabalha
na imensidão da hora morta:
- ou num perfil de medalha
ou a maiúscula inicial
sobre a prata de um punhal
que ainda há de sangrar o dia.

E a "Nova" ao largo se corta,
magra, esquilada, arredia,
empurrando a guampa torta
contra o ventito do Sul,
como num campo de azul,
a ovelha chamando a cria.

Solito, perto do fogo,
como um bugre imaginando,
escuto o Tempo rodando
sem descobrir o seu jogo.

O perro Baio-coleira
faz que cochila... E abre os olhos,
a espaços, regularmente.
E me fixa os olhos claros
como um amigo, dos raros,
cuidando do amigo doente.

É um gosto olhar os brasidos
E os luxos das lavaredas
dançando rendas e sedas
para a ilusão dos sentidos.
E entre o amargo e a tragada
tranqueiam na madrugada
tantos recuerdos perdidos.

E o chimarrão macanudo
vai entrando pelo sangue!
Vai melhorando as macetas,
curando as juntas doridas
como água arisca de sanga
sobre loncas ressequidas.

O peito avoluma e arqueia
como cogote de potro.
E as ventas se abrem gulosas
por cheiro de madrugada.
- Potrilhos em disparada
num Setembro de alvoroto.

Ah! Sangue velho... Descubro
porque hoje estás de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras.
de madrugadas campeiras,
de velhas guardas guerreiras
bombeando pampa e coxilha!

Por isso é que hoje não dormes!
Ouviste a voz de ancestrais:
-"O chimarrão principia!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite pra o dia
Um taura não dorme mais...


      

 

       

Romance do Peão Guerreiro

Autor: José Machado Leal


O rancho era um ninho de paz
perdido no verde do pampa.
Terêncio era um campeiro, um taura
mais guapo que tronco de angico,
que vento minuano varrendo coxilhas,
nas noites de invernia.

Nada na vida lhe botava medo,
sua crença em Deus o fazia grande,
saia lindo de qualquer enredo,
só não sabia, com o sabe o João Barreiro,
que o melhor de tudo era o calor do rancho.

Por isso, quando a quietude dos trevos
agitou-se com gritos de guerra,
guasqueando, no vento,
o pala do moço campeiro
sumiu pela estrada do poente.

Por todos os cantos, cantos de guerra,
tormentas de cascos, trompaços de potros
e o batismo de fogo e sangue
que enrijece um vlente.
Terêncio um campeiro, um taura!

Mas a carga das lanças trovejando nos campos,
borrava de sangue o branco dos lenços.
Ferido e sangrando no orgulho e na alma,
o moço guerreiro dá-lhe rédeas ao flete
e retorna pro pago, pra prenda, pro piá,
com aquele mesmo jeito simples
que o fez patrão de si mesmo...
- Bueno, sem ser covarde,
valente, sem ser maleva!

Bem diz o ditado... Em rancho de pobre
A vontade dos outros é a vontade da gente!

E, antes mesmo que esvaziasse
a primeira chaleira de mate,
esbarra no oitão do rancho
uma patrulha com voz de prisão...
- Desertor, covarde!

Terêncio pisa miúdo, mas não se enreda,
é cuera que não cabresteia,
mania antiga de trançar com gosto e jeito
os tentos da honra, para que, depois,
ninguém diga que ele fora covarde.

De novo, a adaga manheira
rebilha na mão de Terêncio.
O terreiro do rancho um campo de guerra,
tinidos de aço, fazendo cadência,
barbarizam a destreza dos machos.

Depois, a tormenta que cessa
e os homens que foram valentes,
agora, tintos de sangue, estendidos na terra,
jã não vivem para os sonhos bonitos
que um dia sonharam.

Somente o menino campeiro,
olhos molhados, tristonhos,
vai guardando, na memória,
os conselhos que o pai deixou...

- Meu filho, não te esqueças nunca,
que palavra de gaúcho é que nem reza sagrada
e, um fio de bigode, vale mais que juramento!
Isso, eu te deixo como herança
e, para guardá-la, se preciso for,
eu estarei em ti, para pelear de novo!

Desde então, na Semana Farroupilha,
netos, bisnetos, tetranetos desses homens
se perfilam para reverenciá-los.
Eles vestem bombachas, montam a cavalo,
festejam e cantam...

- Como aurora precursora do farol da divindade,
foi o "Vinte de Setembro" o precursor da liberdade!

 

 


                     

Último Pouso

Autor: Luís Menezes
gentileza de Ivan Ramires


A morte é china maleva
Traiçoeira que até dá pena
Vive a pealar gente buena
Sem se importar com o gaudério
Não sei que estranho mistério
Na minha emoção se espelha
Quando minha alma se ajoelha
Ante a Cruz de um cemitério

Fico por horas bombeando
Fingindo frases ficticias
Que ali ficam com as noticias
Penduradas sobre a losa
Dizendo ó tu boa esposa
Dorme em paz aos pés de Deus
Que dirão então os meus
De mim que sou qualquer coisa

Basta morrer pra ser bueno
Basta sofrer pra ser junto
Quem nasce ou morre de susto
Nem frases fingidas tem
E dizer que no além
As almas são tão iguais
Pra que estes luxos demais
Depois que somos ninguém

Mais feliz é a cruz solita
longe no ermo da estrada
Sem fita sem flor sem nada
Marcando o fim de uma vida
Fica dormindo aquecida
No sol que logo a desbota
Sem frase fria ou lorota
Nesta sesteada comprida

Gosto da cruz do proscrito
Na solidão da campanha
Tendo a garrafa de canha
Por promessa recebida
Me dêem esta cruz perdida
Pra que o gaúcho passando
Viva sempre me acenando
Numa eterna despedida

Tomara que Santo Onofre
Seja no céu meu parceiro
Garanto que o dia inteiro
Vamos beber canha e vinho
E assim farei meu cantinho
Na invernada do Senhor
Serei mais um pecador
Tendo um santo por padrinho

Sei que vão falar de mim
Por mulherengo ou andejo
Mas fica aqui meu desejo
Expresso nesta oração
Não falem de um coração
Que no céu não terá luz
E amarrem bem minha cruz
Com as cordas do meu violão.

 

 


                  

O Sonho do Carreteiro

Autor: Luiz Menezes
gentileza de Cleonice Reche La Maison


Carreteou anos a fio.
Conhecia palmo a palmo
as estradas da querência;
Sabia onde dava passo
- no tempo das enxurradas -
aquele arroio sotreta
cemitério de carreta
disfarçado em água mansa
Vira nascer muitos ranchos
nesse corredor sem fim.

Sabia que na picada
logo depois do lagoão,
o umbu do enforcado
dera lenda prás estórias
dos bolichos, das ramadas.

Sabia bem todo o causo
da tapera do repecho:
A maula traíra o guasca
e este sem dó nem piedade,
cortara junta por junta
o belo corpo moreno
daquela indiazinha louca
que se engraçara num piá ...

Mas além, no Passo-feio
vira morrer um tal Juca.
Eram três contra o rapaz.
E como morrerra lindo
aquele guasca sem medo ...
A estória ficou em segredo
pois diz que o tal de mandante
era mui relacionado,
e até contraparente
de um graudaço do povo.

Conhecia palmo a palmo
as estradas da querência,
sempre fora carreteiro.
Envelhecera na lida
sem conhecer outra vida
sem ter outra ocupação.
Tinha por seu ganha-pão
a velha carreta amiga
companheira de cantiga
daquele piazinho vivo
que era, alegria e motivo
de seu final de existência.

Pois ficaram bem solitos
mais amigos do que antes
des’que a finada se fora ...
Por isso sempre de noite
a meia luz do candieiro
ficava horas inteiras
mostrando prá seu piazinho
as letras do ABC.

E o piá com muita memória
decorava uma por uma
as letras que galopeava,
ou por outra, engarupava
nas palavras do jornal.
Como era esperto o guri:
Foi duas, três paletadas
já sabia mais que o pai ...
E foi numa dessas noites
que o velho e bom carreteiro
teve um sonho de repente.
E quasi num gesto louco
gritou prás quatro paredes
enfumaçadas do rancho:
Meu filho há de ser doutor!
Não há de ser carreteiro,
pois estas mãos calejadas
do peso-bruto, da enxada,
hão de sangrar no trabalho
prá que este piazinho feio
viva melhor do que eu ...

Pura e santa ingenuidade!
O arroio-sociedade
prá o pobre nunca dá vau!!
No outro dia cedinho
enveredou para o povo ...

Voltava a velha carreta
A resmungar nas estradas
na viajada da esperança
carregadinha de sonhos.
E o pobre e bom carreteiro
ia falando de tudo
com seu piazinho faceiro
dentro da bombacha nova.

Não esquecia de nada
nos seus conselhos de pai:
Se lá no povo à tardinha
o piá sentisse saudade,
bombeasse prá o horizonte,
que alguém solito decerto
meio tristonho é verdade,
mateando assim com saudade
estaria a lhe esperar ...

Que importa se demorasse,
pois nunca ouvira dizer
que a tal saudade matasse.
Mas nesse dia por certo
Quando voltasse doutor
tudo havia de mudar.
Até o céu com certeza
morada das almas puras
ouviria com ternura
uma indiazinha chorar.

E as estradas da querência
que conhecia demais,
lhe viram passar feliz
com novo brilho no olhar.

Mas lá no povo - cuê-puxa! -
Bateu em todas as portas
clamou por todos os santos
recorreu todos os amigos
- muitos dos quais ajudara -
andou quase mendigando,
Prá dar escola pra o filho
mas ninguém quis lhe escutar ...
E a esperança foi mermando
foi mermando ... e se apagou.

Botou a carreta na estrada
o Piazinho dentro dela
tocou de volta outra vez.
A noite então já chegara.
Naquela enrugada cara
de gigante das estradas
uma lágrima teimosa
veio molhar-lhe o nariz ...
Olhou o filho com carinho,
mas com muito mais carinho
Com mais amor do que antes
e uma queixa derramou:
Quem nasce lutando busca
a morte por liberdade!

Mentira! A tal de igualdade
não existe por aqui ...
Que adianta se amar aos outros
se os outros não dão amor?
Pega a picana, piazinho
e acorda esse boi manheiro,
pois filho de carreteiro
nunca pode

 

 

 


Eis o Homem

Autor: Marco Aurélio Campos
gentileza de Walter Moreira e
simultaneamente beto coelho


Brotei do ventre da Pampa
que é Pátria na minha Terra.
Sou resumo de uma guerra
que ainda tem importância.

E, diante de tal circunstância,
Segui os clarins farroupilhas
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.
Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falquejada
Num cerne de curunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou o grito dos tahas
Coejando sobre as coxilhas.

Caminho como quem anda
Na direção de si mesmo.
E de tanto andar a esmo,
Fui de uma a outra banda,
E se a inspiração me comanda,
Da trilha logo me afasto
E até sementes de pasto
Replanto pelas vermelhas
Estradas velhas parelhas,
Ao repisar no meu rastro.

Sou a alma cheia e tão longa,
Como os caminhos que voltam
Substituindo os espinhos
E a perda de alguns carinhos.
Velhos e antigos afrontes,
Surgiram muitos, aos montes,
Nesta minha vida aragana,
Destas andanças veterana,
De ir descampando horizontes.

Sou a briga de touros
No gineceu do rodeio.
Improtério em tombo feio,
Quando o índio cai de estouro.
Sou o ruído que o couro faz,
Ao roçar no capim.
Sou o rin-tim-tim da espora
Em aço templado.
E trago o silêncio guardado,
Do pago dentro de mim.

Fazendo vez de oratório,
Sou cacimba destampada,
De boca aberta, calada,
Como a espera do ofertório.
Como vigia em velório,
Que tem um jeito que é tão seu.
Tem muito de terra... é céu,
Que a gente sente ajoelhando,
De mãos postas levantando
O pago inteiro para Deus.

Sou o sono do cusco amigo,
Dormindo sobre o borralho.
Sou vozerio do trabalho,
Na guerra ou na paz - sou perigo.
Sou lápide de jazigo
Perdido nalgum potreiro.
Sou manha de caborteiro,
Sou voz rouca de acordeona,
Cantando triste e chorona,
Um canto chão brasileiro.

Sou a graxa da picanha
Na bexiga enfumaçada,
Sou cebo de rinhonada.
Me garantindo a façanha.
Sou voz de campanha,
Que nos lançantes se some.
Sou boi-ta-tá - lobisomem.
Sou a santa ignorância.
Sou o índio sem infância,
Que sem querer ficou homem.

Sou Sepé Tiarajú,
Rio Uruguai, rio-mar azul,
Sou o cruzeiro do sul,
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, charla, Sou chirú,
de magalhanicas viagens,
Andejei por mil paisagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.

Sou enfim, o sabiá que canta,
Alegre, embora sozinho.
Sou gemido do moinho,
Num tom triste que encanta.
Sou pó que se levanta,
Sou raiz, sou sangue, sou verso.
Sou maior que a história grega.
Eu sou Gaúcho, e me chega
P'rá ser feliz no universo.

 

e ser doutor!!